AI e a Ilusão da Estratégia Automatizada
February 18, 2026
A promessa da inteligência artificial é a de nos libertar do trabalho repetitivo para focarmo-nos no que realmente importa: pensar, decidir, criar estratégia.
O que acontece em muita empresas é o oposto. E o problema não é a tecnologia mas o ângulo com que a abraçámos.
Cada algoritmo que "otimiza" uma campanha, cada modelo que "prevê" comportamento do cliente, cada sistema "recomenda" o próximo passo - são escolhas estratégicas embrulhadas em código. Escolhas que deixámos de fazer conscientemente. Ou pior: escolhas que deixámos de saber que estavam a ser feitas.
E quando não sabemos que estamos a decidir, não aprendemos com os erros. Não iteramos. Não evoluímos. Simplesmente delegamos - com uma velocidade e escala vertigionosa. Infelizmente os erros também escalam.
Quando algo corre mal, culpamos os dados. O modelo. A plataforma. O vendor. Raramente olhamos para a decisão humana que autorizou aquela automatização em primeiro lugar. A IA tornou-se o bode expiatório perfeito: suficientemente opaca para absolver, suficientemente sofisticada para intimidar quem questiona.
Nas organizações, isto tem um efeito silencioso e devastador: ninguém é dono das decisões. E quando ninguém é dono, ninguém as melhora. Criam-se sistemas que perpetuam erros com uma consistência que nenhum humano conseguiria manter. Confundimos automatização com estratégia.
Ter um pipeline de machine learning não é ter uma estratégia. Ter dashboards em tempo real não é ter clareza. Ter previsões não é ter direção. A eficiência operacional tornou-se o objetivo, quando deveria ser apenas o meio. AI nao é software, como outra tecnologia que se compra, instala e ta ta... temos a nossa empresa na crista da onda!
Vemos empresas a investir milhões em ferramentas de IA sem uma pergunta estratégica clara. Sem saber o que querem resolver. Sem entender o que estão a otimizar - e para quem. O resultado? Sistemas , talvez eficientes, a fazer as coisas erradas.
Mas a IA amplifica. Não corrige. Se a direção está errada, a velocidade só piora o problema. Porque o ângulo errado não é neutro. É multiplicador.
Uma empresa com uma cultura de curto prazo que adota IA vai tomar decisões de curto prazo mais rápido, com mais dados a justificá-las, e com menos resistência interna para as questionar.
A IA não transforma a cultura empresarial. Espelha-a. E amplifica o que já lá estava.
O que isto significa para quem forma a próxima geração.
Como professor na Universidade de Tartu, tomei uma decisão que muitos colegas consideram provocatória: deixei de ensinar os meus alunos a programar pipelines de machine learning. Deixei de ensinar a fazer gráficos bonitos. Ensino-os a fazer perguntas.
Porque a competência técnica sem pensamento crítico é apenas automação com diploma. E o mercado está cheio disso.
O que falta - e o que as organizações pagam caro para encontrar - são pessoas capazes de olhar para um conjunto de dados e perguntar: o que é que isto nos diz sobre o negócio que ainda não sabemos? O que podemos refazer, não apenas otimizar?
Há uma diferença fundamental entre usar dados para melhorar o que existe e usar dados para questionar se o que existe ainda faz sentido. A primeira é eficiência. A segunda é estratégia.
Um retalhista que usa IA para otimizar rotas de entrega está a ser eficiente. Um retalhista que usa dados para perceber que os seus clientes já não querem entrega - querem experiência - está a ser estratégico. O primeiro sobrevive mais tempo. O segundo redefine o mercado.
É essa diferença que tento ensinar. E é sobre ela que escrevo em ba.armandoscience.com - não um manual técnico, mas um convite a pensar de forma diferente sobre o que os dados podem realmente fazer por uma organização.
A verdade incómoda é que IA não elimina a estrategia. Apenas torna as escolhas menos visíveis. E escolhas invisíveis são escolhas não questionadas. Não debatidas. Não melhoradas. São escolhas que se tornam infraestrutura - enterradas em sistemas que ninguém questiona porque "é assim que o modelo funciona."
A estratégia exige fricção. Exige discussão. Exige alguém que diga "não" quando os números dizem "sim". Exige líderes que entendam o suficiente para questionar, e que tenham a coragem de o fazer.
A IA, usada pelo ângulo errado, é um lubrificante que elimina essa fricção - e com ela, o próprio pensamento estratégico.
IA NAO é uma questão técnica!
Maturidade para saber o que se quer antes de automatizar. Para manter a responsabilidade mesmo quando o sistema decide. Para distinguir o que é eficiente do que é correto. Para perceber que a tecnologia mais poderosa nas mãos de uma organização sem clareza estratégica não é um acelerador.